O pecado do homem segundo o coração de Deus

A Lição de hoje nos ensinará que mesmo os mais eminentes e santos homens de Deus têm seus pés de barro, e precisam como todos os mortais vigiarem seus pensamentos e guardarem seus corações contra a cobiça que, se não neutralizada pelo temor a Deus, pode trazer consequências devastadoras, ainda que prometendo a princípio satisfação de prazeres carnais.

Estudaremos nos típicos seguintes os mais tristes e escandalosos episódios da vida do rei Davi, quando ele abusou de sua autoridade para amontoar pecado sobre pecado. Tendo lido na íntegra os capítulos 11 e 12 do segundo livro de Samuel, procedamos o estudo.

I. Segundo o coração de Deus

1. O homem segundo o coração de Deus

O próprio Deus através do profeta Samuel predissera que Davi era um homem segundo o Seu coração (conf. 1Sm 13.14; Sl 89.20 e At 13.22). Mas em vista dos graves pecados de Davi que estamos a estudar nesta Lição, e registrados no capítulo 11 de 2Samuel, uma pergunta logo nos vem à mente: como Davi pode ser chamado de “homem segundo o coração de Deus”?

A resposta é que embora Davi tenha cometido pecados e não fosse perfeito (e quem é? Até Paulo afirmou: “não jugo que haja alcançado [a perfeição]” – Fp 3.12), ainda era conhecido como um homem que buscava a vontade de Deus. A constante busca pela orientação divina e a sensibilidade para o arrependimento após ser confrontado faziam de Davi este homem de quem Deus se agradara, ainda que tivesse seus erros reprovados e sofresse na pele as consequências de suas transgressões.

Ser segundo o coração de Deus não é ser infalível ou incorruptível, mas é procurar agradar ao Senhor e não pecar, mas se pecar voltar-se arrependido para o Senhor, que “é bom, pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que o invocam”, como afirmou o próprio Davi em um de seus salmos (Sl 86.5). Nas palavras do apóstolo João, dirigidas aos cristãos em todo mundo: “não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2.1,2).

2. Davi era o escolhido de Deus, mas deu lugar ao diabo

Ainda que o diabo não seja citado diretamente nos capítulos 11 e 12 de 2Samuel, não é exagero admitirmos que o grande inimigo de Davi estava lhe rodeando em busca de ocasião para fazê-lo pecar contra o seu Deus. O diabo vive de perambular pela terra (Jó 1.7), buscando a quem possa tragar (1Pe 5.8). Por isso a recomendação paulina: “Não deis lugar ao diabo” (Ef 4.27).

Veteranos na fé, assim como os neófitos, podem cometer graves pecados contra Deus; ilustres e renomados cristãos, bem como anônimos e desconhecidos, podem cair em terríveis tentações. Ninguém está imune! Ainda que escolhido por Deus para o reino, e homem cujo caráter era agradável ao Senhor, Davi precisava vigiar seus pensamentos e seu coração, preservando diariamente o temor e a fidelidade a Deus. Somente assim poderia resistir ao diabo, recusando suas tentações, e triunfar sobre sua própria cobiça, anulando-a pelo temor a Deus, como fez José, quando assediado pela mulher de Potifar, no Egito (Gn 39.6-12).

Apenas ressalte-se ainda que nem toda tentação tem procedência direta de satanás, visto que ele e seus demônios não são onipresentes para estarem em todo lugar, tentando todo mundo ao mesmo tempo. Muitas tentações procedem de nosso próprio interior ou, como dizia Tiago, de nossas próprias concupiscências, isto é, desejos não controlados (Tg 1.14).

Há em todos nós o chamado “velho homem” – em alguns, o velho homem está no trono, dominando com suas concupiscências, fazendo dos pecadores escravos do pecado; noutros, os convertidos, o velho homem está deposto do trono, onde Cristo agora reina, porém, visto que não fomos glorificados ainda com corpo incorruptível, este velho homem continua lá em nosso interior, de quando em quando querendo reaver o seu lugar em nosso coração, reavivando desejos maus para o pecado. O velho homem foi crucificado (Rm 6.6; Ef 4.22-24), e crucificado deve permanecer para que a concupiscência dos olhos e da carne não voltem a nos dominar, arrastando-nos para práticas abomináveis aos olhos do nosso Senhor!

II. O ambiente em que Davi pecou

1. Criando um ambiente propício ao pecado

Segundo o primeiro versículo de 2Samuel 11, no tempo em que os reis saiam para a guerra, isto é, “na primavera” (NVI), quando as estradas estavam secas e era facilitada a viagem das tropas e das carroças de suprimento, além da própria abundância de alimentos encontrada no caminho após as chuvas de inverno, Davi enviou os exércitos de Israel, liderados pelo habilidoso comandante Joabe, para batalhas contra os amonitas. O próprio Davi, porém, que até então tinha não só liderado as fileiras dos exércitos de Israel como sido ele mesmo uma grande inspiração para os soldados, preferiu ficar em seu palácio, em Jerusalém.

Payne comenta que o texto bíblico não deixa implícito que Davi tinha o dever de acompanhar o exército, ainda mais que a essa altura o exército israelita era poderoso, a vitória contra os amonitas era aparentemente certa e a posição de Davi como rei estava bem segura. Todavia, esse comentarista acrescenta: “com demasiada frequência ocorre que uma sensação de despreocupação e segurança seja o prelúdio do fracasso espiritual e moral”[1].

A sabedoria popular ensina que “mente vazia é oficina do diabo”. De fato, quando o homem está ocioso, largado ao descanso, lazer e entretenimento incorre mais frequentemente em tentações do que quando está envolvido em atividades que lhe exercitem a mente em coisas virtuosas (Fp 4.8). Dizia Charles Spurgeon que algumas tentações sobrevêm aos trabalhadores, mas todas elas atacam os ociosos. Parafraseando o puritano Thomas Watson direi que a nossa ociosidade tenta o diabo a nos tentar!

2. Os meios contribuem para a prática do pecado

Tiago, irmão do Senhor, dizia que a cobiça gera o pecado (Tg 1.15). Vemos isso com muita clareza na atitude de Davi: quando passeando pelo terraço de seu palácio, numa tarde quente, avistou a Bate-Seba que banhava-se em sua casa e desejou-a para si. O texto bíblico não explica de que modo Davi pode avistar a mulher e porque o banho dela se deu tão visivelmente para Davi e para os seus servos que reconheceram Bate-Seba tão bem a ponto de dizer a procedência dela.

Teria Bate-Seba percebido estar sendo vigiada pelo rei e pelos seus ministros? Teria ela provocado aquela situação ou, mesmo que não provocado, se congratulado em ser desejada à distância pelo rei, embora fosse mulher casada? Lamentavelmente, hoje não são poucas as mulheres que, mesmo aliançadas com um homem, gostam de ser assediadas por outros. Algumas se sentem “poderosas” diante dos olhos cobiçosos de outros homens, então não fazem caso de se portar com sensualidade nas vestimentas, nas palavras e nos trejeitos.

Mas, no caso em estudo, não podemos beirar o machismo em nossos comentários e atribuir a culpa desta relação adúltera à Bate-Seba, já que nem mesmo o texto bíblico o faz. A culpa recai sobre o rei Davi! Que se desarmem, portanto, os homens que trazem pedras nas mãos para condenar a mulher adúltera! É o rei adúltero que está sob questão em 2Samuel 11 e 12. O homem digno de morte “és tu, Davi”, como o confrontou o profeta Natã (2Sm 12.5,7).

Davi não só agiu cobiçosamente, como ainda alimentou a cobiça e abusou de sua autoridade real para ordenar que trouxessem Bate-Seba, sabidamente casada com um leal soldado do exército de Israel, para que tivesse com ela relação sexual e assim satisfizesse sua concupiscência carnal. Que chances teria a mulher de Urias contra o rei Davi? Poderia ela ter se renegado ao chamado e galanteios do rei? As páginas do Antigo Testamento estão sempre nos apontando mulheres sábias e corajosas que agiram prudentemente em situações de risco. Vê-se, a título de exemplo, os casos de Abigail, mulher de Nabal, e Ester, que veio a ser esposa do rei persa Assuero. Não poderia ser achada em Bate-Seba semelhante coragem para recusar o erro e fazer o que era certo? Será que Davi chegaria ao ponto de violentar Bate-Seba caso ela renegasse o assédio do rei?

Não sabemos o que poderia ser, mas sabemos o que foi. Bate-Seba foi conduzida até Davi, que a possuiu como se fosse sua mulher, ainda que o esposo dela estivesse em guerra, protegendo o reino de seu senhor. A cobiça de Davi o cegou e ele se demonstrou disposto a fazer de tudo, mesmo absurdos, para satisfazer um prazer momentâneo. A Bíblia nos ensina fugir da aparência do mal (1Ts 5.22), mas Davi provocou o seu próprio mal, cedendo à tentação carnal.

Lutero dizia: não posso impedir que pássaros sobrevoem a minha cabeça, mas tenho o dever de impedir que façam ninho sobre ela. Qualquer de nós, por mais santo que seja, está suscetível à tentações internas (do nosso próprio eu) e externas (do mundo e de satanás, como o próprio Jesus suportou suas tentações); mas todos nós, porém, temos o dever de não ceder às tentações, nem ficar, como fez Davi, premeditando em como satisfazer os desejos da carne (Rm 13.14). Nem também podemos usar nossas fraquezas como desculpas para a prática do pecado, antes devemos ver nisso razão para buscarmos ao Senhor mais intensamente e nos colocarmos sob sua proteção, além de redobrar nossa vigilância. Como diz o hino 75 da Harpa Cristã,

III. O adultério e o homicídio de Davi

1. Pecado gera pecado

O pecado já estava instaurado no coração de Davi desde que ele havia contemplado Bate-Seba, detido sobre ela o seu olhar e a desejado em seu coração, alimentando assim pensamentos sensuais. Mesmo antes da conjunção carnal, a mente de Davi já se havia transformado num motel ambular. Densas trevas espirituais pairavam sobre o palácio naquela tarde ensolarada!

Consumado o adultério, Davi despede Bate-Seba e continua vivendo sua vida normalmente, como se aquilo fora algo normal, a que o rei tinha direito. Não era! Mas a consciência de Davi estava entorpecida pelo pecado e ele já não podia distinguir a origem de seus sentimentos. Como diz boa nota da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal (2Sm 11.25), “os sentimentos não são caminhos confiáveis para determinar o que está certo ou errado. O pecado deliberado e repetido entorpecera a sensibilidade de Davi em relação às leis de Deus e aos direitos do próximo”.

Dias e até meses se passaram, enquanto as batalhas contra os inimigos de Israel se estendiam, Davi permanecia folgando em seu palácio. Até que tempos depois de seu adultério, recebe a informação que Bate-Seba está grávida (2Sm 11.5). Com o coração tomado de medo para que seu pecado não fosse descoberto, Davi astutamente providencia para que o marido de Bate-Seba seja trazido de volta da guerra, e de todo modo tenta orquestrar para que Urias vá até sua esposa e se relacione com ela, afim de que o filho já concebido fosse tomado como sendo do esposo e não do rei.

Este é o fiel retrato do ser humano que ignora o arrependimento: está sempre buscando meios para ocultar, desfazer ou justificar seus pecados, ao invés de simplesmente confessá-los, corrigi-los e abandoná-los! Tão cegado estava Davi, e tão entregue ao sono indolente da alma se fizera que ele já não podia perceber que dez erros não corrigem um erro. Não prosperam os que encobrem seus erros! (Pv 28.13).

2. O homicídio de Davi

Muito tático, como já demonstrara ser desde quando enfrentava ursos e leões no campo, pastoreando as ovelhas de seu pai, Davi orquestra um plano para liquidar Urias, já que ele teimava em proteger o palácio real ao invés de deleitar-se com sua mulher no leito conjugal. Davi manda por mãos do próprio Urias sua sentença de morte: o comandante Joabe deveria colocar o inocente e leal soldado Urias diante das trincheiras mais perigosas e deixa-lo à própria sorte para que fosse ferido e morto!

Quanta impiedade de Davi e quanta contradição visto que ele mesmo fora caçado tantas vezes outrora, e injustamente, pelo maligno rei Saul. Agora, é a vez de Davi vestir a capa da malignidade e buscar ocasião contra um soldado leal, só que com uma diferença: Davi teve chances de escapar, até porque conhecia os planos de Saul; a Urias, porém, não foi dada essa chance. Morreu sem saber da gravidez de sua esposa e da infidelidade de seu rei, por quem dera a vida no campo de batalha!

O “doce cantor de Israel” agora portava-se como implacável rei adúltero; o que fora chamado para ser pastor de Israel, comportava-se como lobo devorador. Que poço profundo de pecado a cobiça pode ser para o mais santo homem de Deus! Ninguém flerte com o pecado, ninguém brinque nem negligencie seus valores morais e espirituais. Por uma única brecha o pecado adentra e deixa seus terríveis estragos!

3. Davi e seu comandante

O quanto Joabe pode discernir os intentos de Davi não o sabemos, mas certamente teve alguma desconfiança, que logo veio a se confirmar quando soube do casamento de Davi justamente com Bate-Seba, esposa do soldado que Davi havia ordenado indireta execução na batalha.

Seja como for, Joabe fora um fiel comandante das tropas de Israel e não estava interessado em discutir as ordens do rei, mas apenas em cumpri-las, qualquer que fosse o preço a pagar. Assim, o comandante organizou as tropas de modo que Urias fosse abatido pelos inimigos, além de outros soldados de Israel – talvez para disfarçar também a morte de Urias, e assim não deixar tão evidente o plano de Davi, que poderia comprometê-lo depois.

É fácil para nós julgarmos a atitude de Joabe, já que temos um quadro geral dos eventos bem diante dos nossos olhos; para aquele comandante, porém, no meio da guerra, e ignorante dos fatos que se dera no palácio em Jerusalém, a situação não era tão simples assim.

Mas é possível mesmo assim extrairmos aqui uma aplicação prática, e de cunho ético: quando estamos sob autoridade, devemos acatar as ordens sempre que elas estiverem em conformidade com o bom senso, a moralidade cristã e a ética suprema da Palavra de Deus, e não temer desobedecer ordens que contrariem frontalmente a santidade Deus em nós. Nas palavras de Pedro, “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

Se o pai, patrão ou mesmo líder espiritual querem nos obrigar a fazer algo que contraria nossa consciência e que fere princípios da Palavra de Deus, seja buscando algum lucro fácil, envolvimento em atos criminosos, falsificação de documentos ou satisfação sexual imoral, então tenhamos a coragem de dizer não e aceitar a pena que advir. É melhor sofrer com Cristo do que errar sem ele! É melhor sermos perseguidos pela nossa santidade do que queridos pela nossa imoralidade!

Se formos inocentemente usados por pessoas em posição de autoridade para algo mal, que desconhecíamos e não desejávamos, Deus mesmo será nossa testemunha, advogado e juiz. Porém, se deliberadamente nos fizermos cúmplices dos pecados alheios, Deus nos julgará e condenará. Deus sabe a intenção de nosso coração e sabe quando somos inocentes e quando somos culpados.

4. A tentativa de Davi para evitar as suspeitas do seu pecado

Uma última ação de Davi para encobertar seu adultério, foi tomar Bate-Seba como esposa, antes que o anúncio de sua gravidez se espalhasse por todo Israel, e as desconfianças recaíssem sobre Davi, já que seu encontro com a mulher de Urias fora de conhecimento ao menos dos servos mais chegados do palácio.

Ainda que não existisse nenhuma restrição quanto a uma viúva casar-se novamente, está claro que as motivações de Davi não foram empatia e amor para com uma viúva desamparada, mas parte de um astuto plano para manter sob sigilo seu caso extraconjugal e a gravidez da mulher com que havia se relacionado.

Todavia, como dizem as Escrituras, “não há criatura alguma encoberta diante dele [Deus]; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hb 4.13). O próprio Davi tinha ciência, como registra no Salmo 139, que o Senhor lhe cercava o andar e o deitar, e conhecia todos os seus caminhos (v. 3). A ousada e dura repreensão feita pelo profeta Natã, registrada com detalhes no capítulo 12 de 2Samuel, demonstra como Deus estava perfeitamente ciente do pecado de Davi.

O perdão lhe fora dado, pois o coração de Davi era sincero e, mediante o confronto, não buscou justificar-se, como fizera Saul, que só se importava com a honra pública (1Sm 15.30). A preocupação de Davi era em não perder “a alegria da salvação” nem o Espírito de Deus, como vai deixar claro em sua oração de confissão registrada no Salmo 51. A nós, cristãos, está prometido: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” (1Jo 1.9). Mas é melhor evitar o pecado, pois, como veremos na próxima Lição, o pecado mesmo que perdoado deixa consequências terríveis e desoladoras!

Conclusão

Ao final desta Lição, estejamos mais conscientes quanto ao nosso dever de zelarmos pela nossa saúde espiritual, em oração constante, estudo diário da Palavra, comunhão com nossa igreja local e, acima de tudo, alimentando profundo zelo em nossa postura como cristãos, para que a tentação não encontre portas ou brechas abertas. “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina” (1Tm 4.16), exorta o apóstolo Paulo. O pecado está à porta do coração de cada um de nós, ele “tão de perto nos rodeia” (Hb 12.1). Ninguém se julgue seguro demais a ponto de negligenciar a santificação diária; caso contrário, os dardos inflamados do maligno o abaterão e grande será a queda. “Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!” (1Co 10.12, NVI). Deus nos guarde!

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